“A necessária rapidez dos montadores está atrelada ao conhecimento dos atuais equipamentos de edição” – Chicão Antunes

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Como falamos aqui neste post, a partir do dia 15/09 começa o Curso de Pós-Produção Audiovisual Avançado: Módulo Montagem. E nada mais natural do que a gente deixar a palavra com quem entende (e muito) do assunto. Até o início do curso, vamos apresentar a visão e a rotina de vários profissionais do mercado. E no post de hoje, quem dá o tom é Francisco Antunes, o “Chicão”, editor-chefe de publicidade da Zeppelin Filmes e um dos professores do Curso.

“O quão rápido ele é?” – eis a principal pergunta levantada na hora de considerar um montador para um trabalho, como escreveu Walter Murch no seu livro Num Piscar de Olhos. Se muitas vezes a velocidade de um editor é considerada antes mesmo de seu portfólio, na publicidade essa sentença ganha ainda mais força. Prazos apertados, acúmulo de tarefas, várias horas de material bruto; tudo isso torna extremamente precioso cada minuto de trabalho de um montador de filmes publicitários.

Um finalizador, por exemplo, costuma ter um vasto número de softwares para trabalhar. Já um montador costuma lidar com uma média de apenas dois ou três tipos de editores não-lineares. Sem dúvida alguma, pode-se afirmar que a necessária rapidez dos montadores está atrelada ao conhecimento dos atuais equipamentos de edição.

Por isso esse curso da ESPM surge em um momento tão oportuno. Além da troca de ideias com os profissionais envolvidos, os alunos colocarão a mão nos mais importantes softwares de edição utilizados no mercado.

Além de lidar com a prática da atividade, a troca de informações com profissionais, ao meu ver, é a melhor maneira de aprender. Pergunte a um dos professores do curso e verão que quase todos cresceram ao dividir ideias com pessoas mais experientes também!

Abaixo eu, Francisco Antunes, montador de filmes publicitários, cito alguns exemplos interessantes do meu trabalho.

1. OLYMPIKUS “PULOS”

Exemplo clássico de trabalho na publicidade: um “clipe” com uma trilha bacana, gente bonita, moda e um produto (tênis) em cenas de performance. É fácil fazer um clipe bom, difícil é ele ser MUITO bom. E o que o torna este trabalho especial? Os detalhes! Qualquer um que saiba editar um pouco montaria as cenas em cima da batida da música. Mas o que “ganhou” este clipe foram justamente as cenas “roubadas”. Veja a sequência que começa aos 0:20: o sorriso do garoto encadeado com o olhar da menina, mais o rapaz de costas que parece olhar para a moça que faz um “nãozinho” com o dedo. Isso cria algo a mais do que simplesmente um monte de cenas de ação uma atrás da outra. O “respiro” no meio do filme, que montei deixando as cenas em slow ajuda a ilustrar a a paradinha da trilha (dos 0:10 aos 0:12), o que faz o filme parecer mais rico – se ele fosse todo em ritmo corrido do início ao fim a atenção do espectador iria lentamente cair ao longo do comercial

2. BOB’S “CÂMERA”

Outro exemplo que mostra como o montador deve sempre buscar o diferente, testando todas as alternativas possíveis em busca de um melhor resultado (ainda que os prazos sejam curtos, claro). Pelo roteiro original, quando voltamos para o consultório médico no final do filme, o rapaz deveria estar balbunciando com aquela câmera na boca, tentando explicar para o médico o que aconteceu. Claro que é engraçado, e o diretor realmente filmou dezenas de opções desse acting. Eu mesmo montei meia dúzia de versões com esse final. Mas tanto eu quanto o diretor sentíamos que o filme estava bom, mas que podia ficar melhor. Foi aí que o papel do montador fez a diferença: fui procurar os momentos que ninguém costuma selecionar do material bruto. Assim, o close do rapaz que entrou no filme, no momento em que retornamos ao consultório, nada mais é do que um instante onde o ator estava se concentrando para começar a gravar, e a câmera já estava rodando! Ele estava tão natural e ao mesmo tempo com cara de coitado que a cena acabou encaixando perfeitamente, mantendo a graça do roteiro e o ar mais cool que todos queríamos dar o filme.

3. CLIPE “SAMBINHA BOM”

Um trabalho bem recorrente na vida de um montador de filmes de publicidade é a edição de videoclipes. Este, por exemplo, é da Mallu Magalhães. Falando da edição: o diretor havia basicamente filmado três coisas: a metade inicial no interior da casa, a metade final na piscina e diversos closes de um casal de atores em cenas de amasso. Um caminho óbvio seria montar as cenas conforme a batida da música. Mas, para dar um “molho”, eu sabia que teria que explorar o material de alguma forma. Então, ao invés de tentar “adequar” o material, procurei maneiras de torná-lo mais estranho. Ou seja, causar alguma sensação diferente. Depois de filmado é que o diretor se deu conta que não tinha nada muito pensado para aquela parte do meio da música, aquele intermezzo. Minha solução foi fazer aquele monte de cortes rápidos. Mais uma vez, usei até “cacos” que em princípio “não valiam” do material (preste atenção e verá que tem até cenas de uma janela, um material considerado descartado para muitos que apenas assistiram ao material bruto). Também testei eu mesmo na ilha de edição aquelas cores que “mudam” no meio do clipe. Claro que depois o colorista as acertou, mas as marcações de quando elas entram e saem era minhas. Com esse conjunto de instrumentos, obtive o estranhamento que eu tanto queria testar. Muito acham que ele foi finalizado por “gringos” – encaro isso como um elogio, certo?

Com este último exemplo, percebam também como é importante o montador ser uma pessoa atualizada. E nem estou falando do “feijão-com-arroz”: ir ao cinema já não é mais eletivo, é obrigatório! Com a internet e sites como o Vimeo, temos acesso ao que de mais bacana está sendo feito em clipe, moda, publicidade e cinema no mundo todo. Só pra dar um exemplo, um clipe como este:

Também é algo que poderia ter sido resolvido/editado de modo mais direto. Mas uma concepção de efeitos simples acaba dando gerando algo bem mais interessante. Aliás, esse tipo de sobreposição eu também empreguei no clipe da Mallu como parte da meta de tentar o diferente, o estranho, o bacana.

Então, pode-se dizer que além de “rápido” um montador tem que estar sempre em sintonia com as novidades. A internet nunca foi tão útil para isso, mas ela é só uma ferramenta. O interesse, a curiosidade de se aprofundar nesse universo é o que deixa os bons montadores sempre jovens para trabalhar, independentemente da idade. Ou não sabia que os grandes “mestres” da área são uma galera já “tiozona” (experimente procurar no Imdb.org quem é o Walter Murch que mencionei no início desse texto…)

Era isso! Vejo vocês no curso!

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