De olhos bem fechados: experiências imersivas em áudio 3D

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*Por Sheron Neves, colunista da Escola de Criação e professora do Curso de Storytelling e Transmídia para Marcas

Apesar do argumento frequentemente utilizado de que os humanos são antes de tudo seres visuais, o sentido da audição não deve ser subestimado, especialmente na criação de narrativas. Usando apenas a audição é possível estimar distâncias, saber de qual direção vem um determinado barulho e perceber quando alguém está se aproximando.

Quem frequenta salas de cinema com sistema de som dolby ou possui um home theater sabe o quanto a experiência sonora de um filme pode ser decisiva na sua apreciação. Entretanto existe uma técnica que, apesar de não ser nova, pode deixar esta experiência ainda mais surpreendente e realista. Com a técnica de gravação conhecida como binaural (binaural recording) que possibilita que fones de ouvidos comuns reproduzam efeitos 3D semelhantes aos sistemas de som 5.1, é possível criar uma experiência auditiva incrivelmente imersiva, emulando a forma como o som deveria ser ouvido na vida real (mais detalhes aqui). Atualmente usada em alguns games, a técnica ainda não é comum na indústria cinematográfica, onde o hype nos últimos anos concentrou-se mais na imagem em 3D. Para que o público experiencie o áudio binaural é preciso que a sala de exibição possua cadeiras adaptadas para fones de ouvido, o que dificulta a sua popularização.

Por outro lado, por que não usar a técnica para vídeos online, webséries e filmes para exibição a bordo de aeronaves? Apesar de não ser especialista em áudio, como publicitária não consigo deixar de enxergar aí uma tremenda oportunidade de marketing. Produtos que nos remetem a sons que ativam outros sentidos – como o de uma cerveja gelada sendo aberta, pipoca estourando ou biscoitos fresquinhos e crocantes – poderiam se aproveitar desta tecnologia para desenvolver vídeos online que proporcionassem um storytelling imersivo e sensorial. Ou até mesmo para trazer à memória experiências negativas que o consumidor deseja evitar: o zumbido de um mosquito no seu ouvido que leva você a comprar a marca x de inseticida, ou quem sabe o barulho da broca do dentista que faz você comprar aquela pasta de dente com extra flúor?

Abaixo alguns exemplos do que vem sendo feito. Você vai precisar de conhecimento básico da língua inglesa e fones de ouvido comuns – além de, em alguns casos, nervos de aço:

> Entre os mais populares (e simples) estão Virtual Barber Shop e os sons de mosca e outros insetos da Pimp Your Brain.
Um pouco menos conhecido, The Screwdriver Effect, da banda MindFlow, simula um psicopata com uma furadeira “conversando” com sua vítima (vetado para os de estômago fraco).

> Já The Interrogation Chamber, criado por estudantes de Media Technology na Suécia, tem produção mais sofisticada, colocando você na pele de uma pessoa sendo interrogada por vilões que mais parecem saídos de um filme do Austin Powers (incluindo “Bruno, o torturador russo”). A frase “Bruno does not run away from police, police runs away from Bruno” prova que a narrativa foi criada mais para divertir do que para assustar. E ainda mais divertido é assistir aos reaction videos.

> Em 2011 a HBO usou a técnica como parte de sua campanha de lançamento para Game of Thrones, possibilitando que fãs “caminhassem” por entre as mesas de uma taverna em Westeros e escutassem as conversas entre os personagens.

> Para promover o filme “A Última Casa Da Rua” a Relativity Media lançou um aplicativo gratuito para iPad chamado Escape The House: A 3D Sound Experience, onde os fãs podem “viver” a experiência da protagonista fugindo do assassino na escuridão (enquanto ouve seus próprios batimentos cardíacos).

> O game BlindSide simula a experiência de ficar cego justamente quando há um monstro atacando sua cidade. (que azar, não?) Sem visão, você precisa se orientar através dos sons a sua volta. Bem mais complicado do que parece.

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